Na noite do dia 4 deste mês minha mulher e eu estávamos voltando
de carro da festa em minha homenagem que a minha empresa fez por eu, mais uma vez,
ter fechado um contrato com uma grande empresa internacional que, com isso,
lucramos o estimado do ano inteiro.
Mas minha mulher, enfurecida pela forma que Pamela, minha secretária
se comunicava comigo, gritava e reclamava no banco do lado, sua voz aguda ia
fundo em meu cérebro me causando uma leve dor de cabeça, fazendo com que uma
raiva consumisse meu peito, incendiando a cada palavra vociferada por ela.
Tentando me segurar, apertava o volante com força, deixando as pontas dos meus
dedos brancos com tamanha força que colocava nessa ação.
Caroline resmungava sobre a última festa que fomos, ela
cismava que eu havia a traído com minha colega de trabalho, mesmo eu jurando
que não, e isso me causava ainda mais raiva por ela não confiar em mim. Eu
nunca iria fazer isso, não sou esse tipo de homem, minha mãe que havia me
criado sozinha, não havia me criado desse jeito. Por mais que dias tivessem se
passado, todas as oportunidades minha esposa voltava ao assunto, o que me
deixava a ponto de explodir.
- JÁ CHEGA CAROL! – Gritei a todo pulmão quando mais uma vez
ela falou mal da Pamela, minha colega de trabalho, a “vadia” como ela havia
cismado de chamar. – Você, por favor, pode parar de falar disso? Quantas vezes
vou ter que falar que não houve nada?
- Agora deu para defender a vadia vagabunda? – Gritou me
estapeando no braço. Soltei um forte suspiro tentando manter a BMW que eu
dirigia sobre meu controle no piso derrapante por conta da forte chuva que
castigava a cidade.
- Não estou defendendo ninguém, e se estivesse seria o
certo. Você está louca mulher, LOUCA!
Ela resmungou mais forte falando centenas de palavrões que
até eu mesmo desconhecia. Bufei com força e ainda tentava desviar de seus tapas
enquanto dirigia com uma mão e segurava ou emburrava suas mãos evitando os
tapas.
Foi em um deslize desses que me fez perder o controle do
carro e romper a mureta de concreto com um forte impacto e atravessar para a
contramão. Agora Carol gritava por está assustada e por mais que eu tentasse
evitar, era quase impossível não fazer o carro rodopiar na pista molhada e
inevitavelmente fazendo com que uma Kombi colidisse com a lateral do carro e
nos arremessassem para fora da pista.
Neste instante toda minha vida passou pela minha cabeça, minhas
traquinagens da infância, os momentos bons e ruins com a minha primeira
namorada, a segunda, que foi a mulher com quem eu me casei. Nosso casamento, nossos
filhos, Anna Luiza e Matheus, meu primeiro negócio que meus melhores amigos e
eu abrimos no fundo da minha casa para aumentar nossas rendas, inclusive a
minha, pois eu não tinha dinheiro o suficiente para manter gêmeos por muito tempo
e acabou se transformando nesta empresa internacionalmente conhecida que é hoje
e tudo que nos levou até aqui.
– Se afastem, se afastem! – Ouvi ao longe, mal conseguia
abri os olhos, sentia um vazio em meu peito, a dor que eu sentia pelas feridas
que haviam em meu corpo não se comparavam com ela.
-Carol, Carol. Onde está minha mulher? – Gritava
repetidamente com toda a força que ainda me restava, a angústia que havia em
mim ficava cada vez mais forte. As pessoas que estavam ao meu redor não diziam
nada, talvez por não escutarem ou porque não queriam que eu soubesse o que
havia acontecido com ela, ou porque tudo que eu dizia era apenas um delírio meu.
E eu pensava apenas o pior.
–O carro está totalmente destruído, a vã está com a frente
toda amaçada, há três mortos, cinco pessoas inconscientes e... – Foi só isso
que eu escutei em meio a tantos gritos agonizantes, orações e buzinas, de
pessoas que talvez não tivessem ideia do que estava acontecendo. Tive medo que
ela fosse um desses mortos – Carol, Carol... – Disse (ou pensei que dissera) até
quase perder de vez os sentidos. Até que ouvi um sussurro uma voz familiar me
chamando pelo nome. Eu senti paz e soube, não sei bem porque, que minha mulher
estava bem, só aí então que eu pude ir.
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